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22
O que é estudar filosofia?

por Nigel Warburton

A filosofia é diferente de muitas outras disciplinas das Letras porque para estudar filosofia é necessário fazer filosofia. Para ser um historiador de arte, não é necessário pintar; para estudar poesia, não é necessário ser um poeta; e podemos estudar música sem tocar um instrumento. Contudo, para estudar filosofia é necessário que nos entreguemos à argumentação filosófica (argumentar é apresentar razões ou indícios que conduzem a uma conclusão). Não se trata de operar ao nível dos grandes filósofos do passado; mas quando se estuda filosofia faz-se o mesmo tipo de coisa que eles fizeram. Podemos jogar futebol sem chegar ao nível do Pelé, e podemos obter muita satisfação intelectual filosofando sem a originalidade ou o brilhantismo de Wittgenstein. Mas em ambos os casos será necessário desenvolver algumas das competências usadas pelos grandes praticantes. Essa é uma das razões pelas quais a filosofia pode ser uma área de estudos imensamente compensadora.

A palavra “filosofia” deriva do grego “amor da sabedoria”. Mas isto não é particularmente útil para a compreensão do modo como a palavra é agora usada. A filosofia é uma disciplina nuclear relativamente à maior parte dos cursos de humanidades. Centra-se em questões abstratas como “Será que Deus existe?”, “Será o mundo realmente como nos parece que é?”, “Como devemos viver?”, “O que é a arte?”, “Teremos uma liberdade de escolha genuína?”, “O que é a mente?”, e assim por diante.

Estas questões muito abstratas podem surgir na nossa experiência cotidiana. Algumas pessoas fazem uma caricatura da filosofia como se fosse uma disciplina sem relevância para a vida, uma disciplina para estudar em casa unicamente por satisfação intelectual, o equivalente acadêmico de fazer palavras cruzadas. Mas isto é uma representação gravemente errada de grande parte da disciplina. Por exemplo, o caloroso debate sobre se o boxe deve ser proibido só pode responder-se enfrentando questões abstratas importantes. Quais são os limites aceitáveis da liberdade individual num país civilizado? Quais são as justificações para o paternalismo, para forçar as pessoas a comportar-se de uma certa forma para o seu próprio bem? Por outras palavras, este debate não é apenas sobre reações emocionais ao boxe; depende antes de pressupostos filosóficos fundamentais (um pressuposto é uma afirmação a favor da qual não se avança qualquer argumento; uma afirmação que se aceita para permitir a argumentação).

A análise de razões e argumentos é uma área própria da filosofia. De fato, se a filosofia tem um método distintivo, é este: a construção, crítica e análise de argumentos. As competências filosóficas são aplicáveis em qualquer área em que os argumentos sejam importantes, e não apenas nos domínios da especulação abstrata. São particularmente úteis quando se escreve ensaios, dado que se espera habitualmente que se defenda conclusões, e não apenas que as afirmemos. Por esta razão, uma formação básica em filosofia é extremamente importante, seja qual for a disciplina acadêmica que se tenha em mente seguir.

Nigel Warburton
Tradução de Desidério Murcho
Original: http://www.open.ac.uk/Arts/philos/whatis.htm

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mai
20
Ser e Existir!

A 2ª aula de Filosofia


Estes primeiros contactos com o estranho mundo da Filosofia são sempre muito arriscados. Aliás, trata-se de uma actividade radical e, como tal, devem-se correr riscos. Para fugir ao hábito de receber os conhecimentos direitinhos, prontos a guardar e consumir (diga-se memorizar e reproduzir), conduzi a aula de modo a desestabilizar a tendência para as ideias feitas. Por exemplo, siga-se este diálogo:
Professor (P): -Qual a diferença entre ser e existir? Existem cavalos com asas?
Aluno (A): – Não.
P: – Mas eu penso em cavalos com asas, logo para mim eles existem.
A: – Mas existem como? Que cavalos são esses?
P: – São ideias, são imagens.
A: – Mas, imagens e ideias não são cavalos.
P: – Por isso mesmo, cavalos com asas não existem enquanto cavalos. Só existem as imagens que eu deles crio. Mas esses cavalos, apesar de só existirem como ideias, eu penso neles logo são seres; ou não serão eles mesmo nada?
A: – Não são nada, porque não existem.
P: – Se assim é, como poderia eu pensar neles, se é impossível pensar em nada?
A: – Então, eles são seres porque eu penso neles, mas não existem enquanto cavalos com asas reais. É isso?

P: – Claro! Quando pensas nesses seres eles só existem enquanto fruto da tua imaginação, como ideias ou como imagens. Ora, ideias e imagens não são cavalos com asas reais. Esses são seres em que tu pensas mas dos quais ainda não tens nenhum dado que te convença de que realmente existem enquanto verdadeiros cavalos com asas. No entanto tu pensas neles. São seres que para já não existem, porque ainda não os descobriste.
Conclusão: ser é tudo; existir é ser para si (ou seja, para mim). Nem tudo o que é existe, mas tudo o que existe é. O que não é é nada e nada é impensável. Só se consegue pensar no ser, afirmando-o ou negando-o: o ser é e o não-ser não é.
Eis um exemplo de como o professor tentou “dar um nó” no raciocínio dos alunos, logo na segunda aula.
É para que sintam que, na Filosofia, não interessa tanto saber se os cavalos têm ou não asas, mas sim libertar o pensamento para que ele possa ser mais crítico e criativo. Os alunos devem descobrir, na prática, como se preparam para a vida através dos exercícios de reflexão e argumentação filosófica.

Fonte: http://poize.blogs.sapo.pt/776.html

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mai
20
Humor Filosófico…

PENSAR DORES !

- NIETZSCHE! – Saúde.
- Obrigado.
- Tá Marx heim?!
- Tô com uma Adorno corpo danada…
- Cuidado eim, com mosquito da Heidegger.
- Arquimedes que eu tenho de ficar doente…
- Estou brincando.
- Acho que foi o Schopenhaeur de ontem?
- Quânticos? – Sete, e cinco Pasteur de Bacon.
- Nossa! Fosse eu teria posto os Boff pra fora.

- Sabe como é… Um tira Agostinho aqui outro ali…
- Sei, e acaba no Soren…
- É só uma Wittgenstein.
- Quer um Karl de fruta?
- Zenão, obrigado.
- Você precisa parar com essa mania de Feuerbach todo dia…
- Pascal é o problema?
- A coisa pode ficar Rousseau pro teu lado.
- Que nada… Só preciso tirar uma Sêneca e tudo bem…
- Sartre dessa vida!
- O problema é que eu Goethe tanto de cantar num Karl o que…
- Hannah?
- É isso mesmo… Quem Kant seus Tales espanta.
- Ora, me Popper!
- Vai me dizer que não Goethe de Tomás de Aquino com os amigos?
- Gustav, não Goethe mais.
- Nem Jung golinho?
- Não! – Max por quê?
- Gustav, até o dia que não pude Voltaire pra casa sem ajuda…
- Isso é Freud mesmo…
- Anaxágoras mudei o Foucault da minha vida.
- É?
- Por isso, Newton nem aí se quiser se acabar, mas não Comte comigo.
- Spinoza senhora! Senti uma Pitágoras de amargura aí…
- Problema Ptolomeu.
- Calma! Einstein com algum problema?
- Desculpe… Ando me sentindo Schleiermacher…
- hum, hum…
- Tenho medo de ficar Sócrates…
- Besteira.
- O médico disse…
- Pode falar, o Kierkegaard que seja…
- O médico disse que estou com… Strauss.
- Puxa! Que nada a ver… Mas não Descartes a possibilidade.
- Platão Confúcio pra mim.
- Hegel a cabeça rapaz!
- Acho que eu é que estou precisando de um Schopenhaeur…
- É assim que se fala! Quer do claro ou Epicuro?
- Epicuro.
- NIETZSCHE!
- Zeus te crie.
- Arendt.

Fonte: Blog Verticontes

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mai
19
O conceito de Filosofia

Em busca de uma definição da Filosofia…

Quando começamos a estudar Filosofia, somos logo levados a buscar o que ela é. Nossa primeira surpresa surge ao descobrirmos que não há apenas uma definição da Filosofia, mas várias. A segunda surpresa vem ao percebermos que, além de várias, as definições parecem contradizer-se. Eis porque muitos, cheios de perplexidade, indagam: afinal, o que é a Filosofia que sequer consegue dizer o que ela é? Uma primeira aproximação nos mostra pelo menos quatro definições gerais do que seria a Filosofia:

1. Visão de mundo de um povo, de uma civilização ou de uma cultura. Filosofia corresponde, de modo vago e geral, ao conjunto de idéias, valores e práticas pelos quais uma sociedade apreende e ompreende o mundo e a si mesma, definindo para si o tempo e o espaço, o sagrado e o profano, o bom e o mau, ojusto e o injusto, o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o possível e o impossível, o contingente e o necessário. Qual o problema dessa definição? Ela é tão genérica e tão ampla que não permite, por exemplo, distinguir a Filosofia e religião, Filosofia e arte, Filosofia e ciência. Na verdade, essa definição identifica Filosofia e Cultura, pois esta é uma visão de mundo coletiva que se exprime em idéias, valores e práticas de uma sociedade. A definição, portanto, não consegue acercar-se da especificidade do trabalho filosófico e por isso não podemos aceitá-la.

2. Sabedoria de vida. Aqui, a Filosofia é identificada com a definição e a ação de algumas pessoas que pensam sobre a vida moral, dedicando-se à contemplação do mundo para aprender com ele a controlar e dirigir suas vidas de modo ético e sábio. A Filosofia seria uma contemplação do mundo e dos homens para nos conduzir a uma vida justa, sábia e feliz, ensinando-nos o domínio sobre nós mesmos, sobre nossos impulsos, desejos e paixões. É nesse sentido que se fala, por exemplo, numa filosofia do budismo. Esta definição, porém, nos diz, de modo vago, o que se espera da Filosofia (a sabedoria interior), mas não o que é e o que faz a Filosofia e, por isso, também não podemos aceitá-la.

3. Esforço racional para conceber o Universo como uma totalidade ordenadae dotada de sentido.Nesse caso, começa-se distinguindo entre Filosofia e religião e até mesmo opondo uma à outra, pois ambas possuem o mesmo objeto (compreender o Universo), mas a primeira o faz através do esforço racional, enquanto a segunda, por confiança (fé) numa revelação divina. Ou seja, a Filosofia procura discutir até o fim o sentido e o fundamento da realidade, enquanto a consciência religiosa se baseia num dado primeiro e inquestionável, que é a revelação divina indemonstrável. Pela fé, a religião aceita princípios indemonstráveis e até mesmo aqueles que podem ser considerados irracionais pelo pensamento, enquanto a Filosofia não admite indemonstrabilidade e irracionalidade. Pelo contrário, a consciência filosófica procura explicar e compreender o que parece ser irracional e inquestionável.No entanto, esta definição também é problemática, porque dá à Filosofia a tarefa de oferecer uma explicação e uma compreensão totais sobre o Universo, elaborando um sistema universal ou um sistema do mundo, mas sabemos, hoje, que essa tarefa é impossível. Há pelo menos duas limitações principais a esta pretensão totalizadora: em primeiro lugar, porque a explicação sobre a realidade também é oferecida pelas ciências e pelas artes, cada uma das quais definindo um aspecto e um campo da realidade para estudo (no caso das ciências) e para a expressão (no caso das artes), já não sendo pensável uma única disciplina que pudesse abranger sozinha a totalidade dos conhecimentos; em segundo lugar, porque a própria Filosofia já não admite que seja possível um sistema de pensamento único que ofereça uma única explicação para o todo da realidade. Por isso, esta definição também nãopode ser aceita.

4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas.A Filosofia, cada vez mais, ocupa-se com as condições e os princípios do conhecimento que pretenda ser racional e verdadeiro; com a origem, a forma e o conteúdo dos valores éticos, políticos, artísticos e culturais; com a compreensão das causas e das formas da ilusão e do preconceito no plano individual e coletivo; com as transformações históricas dos conceitos, das idéias e dos valores. A Filosofia volta-se, também, para o estudo da consciência em suas várias modalidades: percepção, imaginação, memória, linguagem, inteligência, experiência, reflexão, comportamento, vontade, desejo e paixões, procurando descrever as formas e os conteúdos dessas modalidades de relação entre o ser humano e o mundo, do ser humano consigo mesmo e com os outros. Finalmente, a Filosofia visa ao estudo e à interpretação de idéias ou significações gerais como: realidade, mundo, natureza, cultura, história, subjetividade, objetividade, diferença, repetição, semelhança, conflito, contradição, mudança, etc. Sem abandonar as questões sobre a essência da realidade, a Filosofia procura diferenciar-se das ciências e das artes, dirigindo a investigação sobre o mundo natural e o mundo histórico (ou humano) num momento muito preciso: quando perdemos nossas certezas cotidianas e quando as ciências e as artes ainda não ofereceram outras certezas para substituir as que perdemos. Em outras palavras, a Filosofia se interessa por aquele instante em que a realidade natural (o mundo das coisas) e a histórica (o mundo dos omens) tornam-se estranhas, espantosas, incompreensíveis e enigmáticas, quando o senso comum já não sabe o que pensar e dizer e as ciências e as artes ainda não sabem o que pensar e dizer. Esta última descrição da atividade filosófica capta a Filosofia como análise (das condições da ciência, da religião, da arte, da moral), como reflexão (isto é, volta da consciência para si mesma para conhecer-se enquanto capacidade para o conhecimento, o sentimento e a ação) e como crítica (das ilusões e dos preconceitos individuais e coletivos, das teorias e práticas científicas, políticas e artísticas), essas três atividades (análise, reflexão e crítica) estando orientadas pela elaboração filosófica de significações gerais sobre a realidade e os seres humanos. Além de análise, reflexão e crítica, a Filosofia é a busca do fundamento e do sentido da realidade em suas múltiplas formas indagando o que são, qual sua permanência e qual a necessidade interna que as transforma em outras. O que é o ser e o aparecer-desaparecer dos seres? A Filosofia não é ciência: é uma reflexão crítica sobre os procedimentos e conceitos científicos. Não é religião: é uma reflexão crítica sobre as origens e formas das crenças religiosas. Não é arte: é uma interpretação crítica dos conteúdos, das formas, das significações das obras de arte e do trabalho artístico.Não é sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dos conceitos e métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, mas interpretação, compreensão e reflexão sobre a origem, a natureza e as formas do poder. Não é história, mas interpretação do sentido dos acontecimentos enquanto inseridos no tempo e compreensão do que seja o próprio tempo. Conhecimento do conhecimento e da ação humanos, conhecimento da transformação temporal dos princípios do saber e do agir, conhecimento da mudança das formas do real ou dos seres, a Filosofia sabe que está na História e que possui uma história.

Fonte: Convite a Filosofia de Marilena Chauí

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