
Dov Seidman ,o guru da virtude empresarial acredita que a filosofia deve ser disciplina obrigatória nos negócios e que as empresas deverão ter um “ginásio ético”, no qual se devem exercitar todos os dias. Chama-se Dov Seidman, cresceu em Israel, vive na Califórnia, estudou Filosofia e Direito e é fundador da LRN. A história de alguém que acredita que é a ética que pode mudar o mundo…
De acordo com Seidman, e no meio de crises climáticas e financeiras, hábitos de consumo globais e outros desafios magistrais que caracterizam o século XXI, é necessário encontrar uma nova “killer app”. E, para o consultor, a resposta está na filosofia.
Na rubrica mensal que assina na revista BusinessWeek, Seidman afirma que a filosofia nos ajuda a abordar, literalmente, os desafios existenciais com os quais o mundo da actualidade se confronta, especialmente nos cenários empresariais.
Os filósofos, como é sabido, exploram as mais profundas e vastas questões da vida – por que existimos, de que forma é que a sociedade se deve organizar, como é que as instituições se devem relacionar com esta e o propósito da iniciativa humana. E Seidman cita o livro de Adam Smith, “A Riqueza das Nações”, que serve como a plataforma intelectual para o capitalismo e que lança os fundamentos para a organização dos mercados e para a forma como as pessoas se devem comportar nesses mesmos mercados. Sublinhando o facto de que Adam Smith não era um economista, mas um filósofo – que, na altura em que escreveu a famosa obra, era presidente do Departamento de Filosofia Moral na Universidade de Glasgow – Seidman relembra que o trabalho de Smith, tal como o de outros filósofos, tentava criar uma nova estrutura de compreensão do mundo, abordando a forma como nós, enquanto humanos, procuramos um alinhamento nos nossos relacionamentos e também entre interesses concorrentes.
Para Seidman, a abordagem filosófica de Adam Smith é cada vez mais relevante à luz das crises enfrentadas pelas nossas organizações e países. É que, de acordo com a sua visão, as crises que afectam o crédito, o clima ou o consumo já não podem ser resolvidas somente através de competências especializadas. Ou seja, a interdependência existente entre todas estas questões dá origem a que todas elas se influenciem entre si e, tal como a abordagem filosófica faz, a ideia é ligar todos os pontos existentes entre os interesses em conflito numa tentativa de criar sinergias fortes entre os mesmos. E relacionar estes interesses opostos exige um olhar filosófico que os especialistas da actualidade ignoram vezes demais: e que reside nas crenças principais de cada um, na ética e no carácter.
Tal como os filósofos, tanto os indivíduos como as organizações precisam de manter vivos e em acção os valores, a ética, o carácter e toda a condição humana que os define em todas as alturas em que é necessário tomar decisões. E Seidman cita o filósofo grego Heraclito que, há mais de 2500 anos já afirmava que “o carácter é o destino”.
Para o consultor, a boa notícia é que são muitas as empresas que já estão a colocar em prática esta filosofia, criando um conceito de alinhamento em termos de visão do mundo, seja com um colega, com um parceiro de negócio ou com qualquer outro stakeholder. Estas organizações promovem já a noção de que a sua missão se estende para além do lucro, procurando novas estruturas – seja em que sector de actividade for – para melhorar a sua existência e a dos que as rodeiam. “No nosso mundo ligado e transparente, no qual qualquer pessoa pode facilmente ter acesso às nossas operações, tornou-se já claro que as empresas, e até as nações, têm carácter – e que o seu carácter é o seu destino”, sublinha.
No trabalho que mantém com as grandes empresas, Seidman afirma que as questões da integridade, da verdade e da transparência estão a ser cada vez mais consideradas como uma prioridade. Ao longo dos tempos, as empresas e os líderes sempre se esforçaram por passar uma mensagem que defendesse algum tipo de valores. Contudo, nos anos 80 e 90, se recordarmos as declarações dos grandes líderes de negócios, todas as suas preocupações sobre os valores que pretendiam transmitir eram de ordem prática: a excelência, a qualidade, o serviço ou a eficiência dos custos.
De acordo com o especialista, estamos a assistir, neste século XXI, a uma mudança significativa desses “valores”: cada vez mais a integridade e a confiança são os verdadeiros valores apregoados pelas empresas e da ordem prática das coisas passou-se para a ordem social, ambiental e, mais recentemente, humanista. Seidman dá alguns exemplos práticos desta viragem: a Dow Chemical paassou a ser a “empresa do elemento humano”, a Chevron “a companhia da energia humana” enquanto que a Toyota está a “humanizar os transportes”.
Esperemos é que, tal como a filosofia, esta mudança não sirva apenas para ser considerada como uma bonita teoria, mas antes como uma (boa) prática.
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