jul
2
Alice no País das Maravilhas – “tudo tem uma moral”

 

“Você não pode imaginar como eu estou feliz em vê-la novamente, minha queridinha”, disse a Duquesa, tocando afetuosamente o braço de Alice, passando a caminhar junto com ela.
     Alice ficou feliz por encontrá-la de bom humor, e pensou consigo mesma que talvez fosse a pimenta que a deixava tão selvagem como quando as duas se conheceram na cozinha.
     “Quando eu for uma Duquesa”, ela disse para si mesma (não em um tom muito esperançoso), “não vou usar pimenta em minha cozinha de jeito nenhum. Sopa cai muito bem sem isso talvez seja a pimenta que deixe as pessoas mal-humoradas”, ela continuou, bem feliz de ter descoberto um novo tipo de regra, “e o vinagre as deixa azedas…e a camomila as deixa amargas…e…e as balas de cevada e este tipo de coisas é que deixam as crianças tão doces. Eu queria que as pessoas soubessem disso: então, eles não seriam tão sovinas com doces, sabe…”
     Ela quase se esqueceu da Duquesa nessa hora e levou um pequeno susto quando ouviu sua voz perto dos ouvidos.
     “Você está pensando em alguma coisa, minha querida, e isso faz você esquecer de falar. Eu não posso lhe dizer agora qual é a moral disso mas vou lembrar num instante.”
     “Talvez não haja nenhuma”, Alice aventurou-se a observar.
     “Ora, ora, criança!”, retrucou a Duquesa. “Tudo tem uma moral, se você encontrá-la.” E foi se apertando contra Alice enquanto falava.
     Alice não gostou muito de estar tão perto dela, em primeiro lugar porque a Duquesa era muito feia, e em segundo lugar porque era do tamanho exato para apoiar o queixo sobre o ombro de Alice, e possuía um queixo muito pontudo. Entretanto, Alice não queria ser rude e por isso agüentou o quanto pôde.
     “O jogo parece estar bem melhor agora”, disse para manter a conversa.
     “Perfeito”, respondeu a Duquesa, “e a moral disso é…‘Oh!, é o amor, é o amor que faz o mundo girar!’”
     “Alguém disse”, Alice murmurou, “que ele gira quando cada um cuida dos seus próprios negócios.”
     “Ah! Bem! Isto quer dizer quase a mesma coisa”, disse a Duquesa enfiando o queixo pontudo nos ombros de Alice, completando, “e a moral disso é…‘Tome conta do sentido e os sons tomarão conta de si mesmos.”
     “Como ela gosta de achar uma moral em tudo!”, Alice pensou consigo mesma.
     “Aposto como você está pensando porque eu não coloco meu braço na sua cintura”, a Duquesa falou, depois de uma pausa. “A razão é: tenho dúvidas em relação ao humor do seu flamingo. Posso experimentar?”
     “Ele pode bicar”, Alice cautelosamente replicou, não se sentindo nem um pouco a fim de que ela tentasse.
     “Bem verdade”, disse a Duquesa, “flamingos e a mostarda bicam. E a moral disso é…‘Pássaros da mesma plumagem voam juntos’.”
     “Só que a mostarda não é um pássaro”, Alice observou.
     “Certo. Como sempre”, disse a Duquesa, “você tem uma maneira muito clara de colocar as coisas!”
     “É um mineral, eu acho”, disse Alice.
     “É claro que é”, disse a Duquesa, que parecia pronta para concordar com tudo que Alice dissesse. “Há uma grande máquina de mostarda perto daqui. E a moral disso é…‘Quanto mais tenho para mim, menos sobra para os outros’.”
     “Ah!, já sei!”, exclamou Alice, que não tinha prestado atenção à última observação da Duquesa. “É um vegetal. Não parece com um mas é.”
     “Eu concordo com você”, disse a Duquesa, “e a moral disso é…‘Seja o que você parece ser’…ou, se você prefere colocar isso de um jeito mais simples…‘Nunca se imagine diferente do que deveria parecer para os outros o que você fosse ou poderia ter sido não seja diferente do que você tendo sido poderia ter parecido para eles ser diferente’.”
Fonte: Livro  Alice no Pais das Maravilhas

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mai
20
Alice no País das Maravilhas – Conselho de uma lagarta

     

 A Lagarta e Alice olharam-se uma para outra por algum tempo em silêncio: por fim, a Lagarta tirou o narguilé da boca, e dirigiu-se à menina com uma voz lânguida, sonolenta.
     “Quem é você?”, perguntou a Lagarta.
     Não era uma maneira encorajadora de iniciar uma conversa. Alice retrucou, bastante timidamente: “Eu — eu não sei muito bem, Senhora, no presente momento — pelo menos eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que tenho mudado muitas vezes desde então.
     “O que você quer dizer com isso?”, perguntou a Lagarta severamente. “Explique-se!”
     “Eu não posso explicar-me, eu receio, Senhora”, respondeu Alice, “porque eu não sou eu mesma, vê?”
     “Eu não vejo”, retomou a Lagarta.
     “Eu receio que não posso colocar isso mais claramente”, Alice replicou bem polidamente, “porque eu mesma não consigo entender, para começo de conversa, e ter tantos tamanhos diferentes em um dia é muito confuso.”
     “Não é”, discordou a Lagarta.
     “Bem, talvez você não ache isso ainda”, Alice afirmou, “mas quando você transformar-se em uma crisálida — você irá algum dia, sabe — e então depois disso em uma borboleta, eu acredito que você irá sentir-se um pouco estranha, não irá?”
     “Nem um pouco”, disse a Lagarta.
     “Bem, talvez seus sentimentos possam ser diferentes”, finalizou Alice, “tudo o que eu sei é: é muito estranho para mim.”
     “Você!”, disse a Lagarta desdenhosamente. “Quem é você?”
     O que as trouxe novamente para o início da conversação. Alice sentia-se um pouco irritada com a Lagarta fazendo tão pequenas observações e, empertigando-se, disse bem gravemente: “Eu acho que você deveria me dizer quem você é primeiro.”
     “Por quê?”, perguntou a Lagarta.
     Aqui estava outra questão enigmática, e, como Alice não conseguia pensar nenhuma boa razão, e a Lagarta parecia estar muito chateada, a menina despediu-se.

Fonte: Livro  Alice no Pais das Maravilhas

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