nov
28
Edith Stein e Neotomismo

Por Francisco Renaldo da Costa

Digno de ter em conta, para compreender o pensamento centro-europeu nas primeiras décadas do século presente, e o movimento neo-escolástico, forte e animado entre outros documentos por duas encíclicas: Aeterni Patris (1897) de Leão XIII e Pascendi (1907) de Pio X. Ambos documentos exortam a recorrer sobre tudo a Santo Tomas. Com ele se pretendia salvaguardar o pensar católico dos perigos do modernismo; sem parar, esta postura trará como conseqüência uma ruptura mais profunda entre cultura e Igreja. O ressurgir do neotomismo alcançou um forte florescimento em algumas nações centro-européias.

Estava atenta Edith Stein ao movimento neo-escolástico em sinal da Igreja católica segundo confissão própria, considera que sua posição principal há de ser a de servir de ponte entre os dois mundos: o mundo tomista e o pensar moderno. Um primeiro instante seria o estudo Husserls Phanomelogie Und die Philosopie des heiligenl Thomas von Aquino ( A fenomenologia de Husserl e a filosofia de Santo Tomas de Aquino), de 1929; um segundo é a tradução levada a frente do tratado De Veritate de Santo Tomas nos anos 1931 – 1932; o terceiro constituiria sua participação no Congresso Tomista de Juvisy, em 1932, em que se perseguia um aproximar-se da fenomenologia; o quarto é sua grande obra “Ser finito e Ser eterno”, escrita em 1936. A aproximação destas duas cosmovições não estava motivada exclusivamente por motivos de coincidência cronológica; pesam também semelhanças temáticas e influxos mútuos.

No debate sobre a existência ou não de uma filosofia cristã, reativada nos anos 30 de nosso século, Edith Stein defende pelo recurso a quantas fontes contribuem dados. Razão e Fé, longe de excluir-se, muito bem está chamadas a colaborar, são meios legítimos de conhecer humano. O princípio que adapta Edith Stein cai formulado da seguinte maneira: “O filosofo que não quer ser infiel a sua finalidade de compreender o ente até suas últimas causas, se vê obrigado a estender suas reflexões no campo da fé, mais além do que lhe é acessível naturalmente”[1]. Dito de outro modo: “Uma compreensão racional do mundo, é dizer, uma metafísica … só pode ser alcançada pela razão natural e sobrenatural conjuntamente”. O resultado desta colaboração seria o perfectum opus rationis[2].


[1] STEIN. Ser Finito…, op. cit., p. 40.

[2] Id., Ibid., p. 44.

Popularity: 8% [?]

PDF    Enviar artigo em PDF   

mai
8
Edith Stein – Parte II

Por Francisco Renaldo Costa

A FENOMENOLOGIA DE EDMUND  HUSSERL

De maneira consciente se incorpora Edith Stein à corrente fenomenológica. Ela estava convencida de que Husserl  era o filósofo de seu tempo. Em parte, desemboca neste movimento pelo desencanto que provou ao estudar a psicologia. É na fenomenologia e na sombra de seu fundador, onde Edith Stein se forma como filósofa.[1] Muitas são as vezes que saltam à vista nos relatos autobiográficos a simpatia e a satisfação da jovem universitária frente este novo modo de ver o mundo e as coisas que ele contêm. O atrativo foi grande, e o enriquecimento não será menor. Se identifica plenamente, até cair configurando seu pensamento  pelo espírito fenomenológico. Se converterá em reprodução inapagável por mais que assimile com o passar do tempo outras escolas. A conversão ao catolicismo não supõe  renúncia à fenomenologia. Quando em 1936, redige sua obra filosófica Endliches Und Ewiges Sein (Ser finito e Ser eterno) da cela de carmelita, recordará que sua pátria filosófica é a escola de Husserl e que sua língua materna continua sendo a dos fenomenólogos.

Dentro do movimento fenomenológico, a empatia de Edith Stein vai coincidir as contribuições sobre o mundo intersubjetivo, questão básica para superar o eterno problema do solipsismo. Sua primeira produção filosófica[2] está centrada em aplicar a redução fenomenológica a esse momento em que dois sujeitos são capazes de convergir tanto, que a vivência de um é integrada na experiência do outro. Não se trata senão do fenômeno da empatia, fenômeno que vai mais além do que o simples acordo em sintonia de criaturas – este seria o nível da simpatia -, enquanto que aquele afeta o núcleo mais íntimo da pessoa, sem querer e sentir. Esta capacidade de compreensão da experiência alheia estaria a base da sociabilidade humana. Porque podemos compreender, conviver e estabelecer relações intra-pessoais. O elemento que vincula esta experiência é a capacidade; não é o   Körper, senão  Leib[3].

 


[1] STEIN, Edith. Ser Finito y Ser Eterno. México, Fondo de Cultura Económica, 1994,  p. 30.

[2] Aos três de agosto de 1916 defende sua Tese Doutoral em Filosofia na Universidade de Friburgo, tendo como orientador Edmund Husserl. Escolhera um tema exigente e não muito explorado: “ Zum Problem der Einfuhrung”( Sobre o Problema da Empatia).

[3] Na língua alemã Körper se refere ao corpo material e Leib ao corpo animado.

Popularity: 3% [?]

PDF    Enviar artigo em PDF   

abr
25
Edith Stein – Parte I

edith stein

Por Francisco Renaldo Costa

Como sabem, sou formado em filosofia pela PUC de Belo Horizonte. No ano de 2001, apresentei um trabalho científico, onde abordei o pensamento de uma filósofa não  muito conhecida no mundo acadêmico, contudo, aos poucos ganha seu espaço.

Na verdade sou apaixonado pela biografia e obras dessa mulher fantástica, coragem imensurável.

Hoje em dia é mais conhecida como Santa Benecdita da Cruz (mulher hebréia, monja carmelita, filósofa e santa) da Ordem dos Frades Carmelitas Descalços.

A vida desta grande mulher hebréia não é somente de relevância ad intra, mas também, ad extra. Em outras palavras, a mensagem de  Edith Stein não só tem importância para a Igreja e os membros de   sua Ordem Religiosa,   o Carmelo Descalço  , mas tornou-se patrimônio da Humanidade inteira. Oferece uma mensagem atual para as relações entre fé e ciência; diálogo ecumênico; posição da mulher na sociedade; vida consagrada e formação da pessoa humana.

Neste post publico uma parte do  segundo capítulo.

Aos poucos e conforme o interesse de vocês leitores, publicarei alguns capítulos dessa monografia, que tem como título:

O  Homem na visão de Edith Stein: ser racional, livre e espiritual

CAPÍULO 2

EDITH STEIN E AS CORRENTES FILOSÓFICAS DE SUA ÉPOCA

      Para uma melhor compreensão do pensamento de Edith Stein, neste primeiro capítulo procuraremos situá-la em seu tempo. Desde suas primeiras investigações filosóficas, vemos de forma explícita ou velada, que a pessoa humana encontra seu espaço privilegiado.

     É próprio da filosofia indagar a verdade, aceitando que nenhum sistema a possuí em sua perfeição; daí a necessidade de escutar novos horizontes e de servir-se de quanto se oferece a reflexão. Neste sentido encaixam-se perfeitamente com planejamento filosófico de Edith Stein uma multiplicidade de fontes, influências, referências e projeções.

     Passemos a resenhar aquelas escolas e tendências dominantes em centro-europa e, que contribuíram  na construção da figura de Edith Stein. As idéias e os princípios não só se aprendem nas aulas; com freqüência estas modelam aos indivíduos pelos simples fato de formar parte de uma sociedade em que estão vigentes tácita ou abertamente.

   2.1. O ATEÍSMO

 O século XX se abre com a morte de Nietzsche, um dos pensadores mais influentes nas gerações dos tempos modernos. Se propõe levar adiante uma autêntica revolução filosófica, invertendo os valores e princípios vigentes até então. Tal ação tem sua expressão máxima na proclamação da morte de Deus. O século XX entra ateu na história. Na realidade o que aquele louco se atreveu a gritar na praça pública, era já desde séculos verdade implícita tanto do saber científico como filosófico.

     Tanto na vida como na obra de Edith Stein fazem ato de presença e atitudes agnósticas de ausência de Deus. Suas decisões pessoais são tomadas sem a inervenção de uma força superior; a razão basta-lhe. São os ecos do Niilismo nietzscheano presentes em boa parte da juventude alemã. Algo disto se deixa traduzir em sua autobiografia. Narrando certos momentos acontecidos em torno dos seus 15 anos, quando a liberdade punha para tomar assento na personalidade , todavia ainda imatura, escreve: “Já é contudo como perdi a minha fé infantil e como, que se ao mesmo tempo comecei a me estranhar, como pessoa independente a toda tutela de minha mãe e irmãos”[1]. À mãe julga o papel da substância divina.


[1] STEIN, Edith. Estrellas Amarillas. Madrid,  Ed. Espiritualidad, 1973 , p. 201.

Related Posts with Thumbnails

Popularity: 11% [?]

PDF Download    Enviar artigo em PDF