
O filme em análise chama-se “Sociedade dos Poetas Mortos”, direção de Peter Weir, EUA. No que se refere ao ano em que foi produzido, como as fitas que tive acesso fazem parte da videoteca “Caras”, não consegui encontrar o ano de sua produção; contudo, o cenário do filme, é de por volta da década de 1960.
Considerações iniciais
A análise realizada pode não seguir o roteiro proposto, uma vez que não tivemos acesso à Internet nos últimos dias, por razões de problemas técnicos e de não encontrarmos um outro ambiente que possibilitássemos devido acesso. Contudo, propomos uma organização baseado naquilo que entendemos estar próximo do ideal, posto que já havíamos lido o roteiro pela Internet a aproximadamente uns quinze dias atrás.
A priore, é pois mister considerar que quase todas as cenas do filme se passam dentro de um colégio, com raras exceções de cenas externas. Os principais personagens que podemos destacar são: prof. Keating, Neil Perry, Meekes Steven, Knox Overstreet, Tod Anderson, Jefrey Anderson, Richard Cameron, Charlie Doblar e Gerard Pitts; os quais constituem, basicamente, uma sala de aula e , quase todos, fazem parte de um grupo de amigos que tentam restaurar a “Sociedade dos Poetas Mortos”. O objetivo do filme é, entretanto, confrontar o modelo conservador e o progressista de educação, passando a idéia de que educar é um processo maiêutico de levar o discente a descobrir a verdade que se encontra dentro de si e que, tudo passa, para sempre tudo se acaba, de modo que nada é mais importante do que refletir a vida, as paixões, os amores, tudo o que nos humaniza. Portanto, “rapazes: aproveitem o dia! Façam de suas vidas algo de extraordinário”. Tudo isso são perceptíveis, contudo, a análise que faço pretende usar de cenas para a reflexão de alguns filósofos e idéias.
Breve sinopse
Quando o carismático professor Jonh Keating, estrelado por ROBIM WILLIAMS, chega com seus métodos de ensino a um colégio conservador, acaba despertando em seus alunos um novo questionamento, uma nova forma de vida. “Carpe Diem, rapazes: aproveitem o dia! Façam de suas vidas algo de extraordinário”; com estas palavras, ele estimulou a viverem cada minuto de suas vidas intensamente, suscitando nos próprios alunos um impacto muito grande em suas relações com seus pais, professores e sociedade.
Com efeito, motivados pelas aulas do professor, os alunos passam a tomar posições por si próprios, a combater o autoritarismo da escola com argumentos e sátiras, a buscar viver intensamente em todos os lugares e situações, e, impossibilitado disso, Neil Perry submete-se a prática do suicídio, em razão de que seu pai queria determinar a ele o que fazer o que ser. O suicídio de Neil foi a “gota d’água” que faltava para que o diretor conservador, insatisfeito com o professor, o mandasse embora , depois de uma “maquiavélica” armação que induziu os alunos a entregá-lo como sendo responsável pelo suicídio. Porém, no final, os alunos desafiam o autoritarismo do colégio Infernoton com práticas ensinadas pelo professor Keatng, ao se solidarizarem com ele no momento em que acabava de pegar seu material e saia da sala de aula para ir embora, expressa na frase “ Oh! Meu capitão! Meu capitão!”.
Análise
O filme aborda a questão educacional, auferindo uma crítica ao modelo tradicional e conservador, como sendo mero formador de pessoas quadradas, sem opiniões, uma vez que suas idéias são idéias de autores famosos. “É preciso rasgar as introduções e extinguir o ensino de técnicas de entendimento da poesia, criar a sua maneira de pensar” ( frase baseada numa cena do filme) e, sobretudo, a questão do viver intensamente a cada momento da vida expressa na frase “ carpe diem, rapazes: aproveitem o dia!”. Com efeito, o filme, sendo uma obra de arte, evidentemente, pode possibilitar aos telespectadores perspectivas diferentes, no que tange a sua análise. Para tanto, apresentamos uma análise que nos parece ser relevante com o filme e a própria filosofia. Analisaremos a questão da liberdade humana dentro da perspectiva sartriana e a questão da construção de um pensamento próprio. A análise vislumbra, no primeiro momento, uma tentativa de associar às idéias de Sartre. Contudo, de maneira geral, pretendemos discorrer idéias de outros filósofos também. Para tanto, apresentamos uma análise, dentro de nossos limites, considerando o pouco tempo que tivemos para tal ( em razão de nossas atividades profissionais) “. É importante destacar que em momento nenhum do filme aparecem posições de filósofos de maneira definida, aparecem fatos e idéias que nos possibilitam tratá-las de maneira filosófica, sob a luz de alguns pensadores.
Uma das cenas mais dramáticas do filme, corresponde à qual um personagem de nome Neil Perry , motivado pela idéia da “Sociedade dos Poetas Mortos” (sociedade que existira quando o professor Keating foi estudante naquele colégio), de ser livre pensador, de ser construtor de sua própria saga, se descobre com dotes excepcionais para representar peças de teatro. Porém, tal capacidade, colidia com o que seu pai queria que o fosse. Depois de uma longa tentativa em convencer seu pai que o deixasse ser o que queria, sem êxito, Neil, que se descobria livre, que não pensava mais segundo as convicções de outrem, revoltado com a atitude autoritária de seu pai, caí em desespero e prática o suicídio. Ora, a cena torna-se impreterivelmente necessária associá-la ao existencialismo, sobretudo às idéias de Sartre, uma vez que o filósofo enfatiza que o homem esta condenado a liberdade, que precisa assumir as próprias escolhas, posto que é responsável pela sua história. Com efeito, Neil, ao se descobrir que era o responsável pelas suas decisões, que nenhuma outra pessoa poderia salvá-lo de sua liberdade, por primeiro ele se angustia e vive num dilema profundo, pois seu pai o impedia de representar, em outras palavras, fazer sua escolha e, se o fizesse, bateria de frente com o seu pai. Angustiado, cai em desespero e não tendo equilíbrio suficiente para escolher a vida, escolhe a morte. O personagem Neil ao escolher a morte, não deixou de escolher em liberdade, pois a morte foi uma escolha: a de deixar de existir..
Observamos ainda na cena a capacidade humana de acabar com a vida humana, isto é, quando a sua liberdade é cerceada. Podemos entender o porque muitas pessoas em momentos de regimes autoritários, mesmo sabendo que suas idéias podem levá-los à morte, não se amedrontam e difundem suas idéias, de maneira cada vez mais intensa. Quando o personagem escolhe a morte, diferentemente de Sócrates que afirmava ser bom a morte, porém que não era justo praticá-la com sua própria mão, o jovem toma uma posição compreensível ao existencialismo que entende que o homem ao se perceber responsável pelo que é, que está desamparado no mundo e ninguém pode salvá-lo dessa situação, está, também, sujeito ao “suicídio” ( essa conclusão é baseado na leitura que faço acerca de Sartre), Porém, num determinado aspecto, o jovem igualmente a Sócrates, entrega sua vida pelos seus ideais, uma vez que a cena pode muito bem sensibilizar um pai a não ser semelhante ao pai do personagem; nesse sentido, a atitude do jovem engaja a toda a humanidade a lutarem por seus ideais, e, os pais, a entenderem melhor as vontades e desejos de seus filhos. Assim, a liberdade humana é o que o homem tem como riqueza imprescindível, pois se ele a negar, mesmo assim, tal atitude será fruto de sua liberdade. Portanto, é possível afirmar que a liberdade se manifesta na construção de um ser e, a saber, associa-se a um ideal que pretende engajar a toda humanidade, no caso da cena do filme, o de ser livre para escolher o que ser na vida.
Outro ponto extremamente interessante do filme, concerne a uma frase descrita num livro, no lugar da introdução, por um membro da sociedade dos poetas mortos, pelo professor Keating, que diz: “Fui a floresta porque queria viver profundamente e sugar a essência da vida. Eliminar tudo o que não era vida. E não, ao morrer, descobrir que não vivi”. A frase é um convite para que aproveitemos tudo aquilo de bom que a vida nos proporciona, como em todo o filme o professor Keating orienta seus alunos, dentro de princípios que exaltem e prevaleçam a vida, com isso, usamos a frase de Michel de Montaigne: “Qualquer que seja a duração da vida ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante”. Portanto, é preciso aproveitar a viver, porém aquilo que pode implicar na negação da vida, deve ser banido, pois o viver bem está no emprego que lhe dais a vida. Com efeito, é preciso viver uma vida examinada, como dizia Sócrates, não obstante, dentro de uma perspectiva de se deixar envolver por aquilo de bom, que podemos sugar da vida, a fim de gerar mais vida..
É mister, entretanto, discorrer acerca de uma fala do professor Keating, em que enfoca que: “Há coisas que são necessárias para a vida, porém há outros que nos mantém em pé, que nos tornam humanos”. Tal frase é apresentada no filme pelo professor para justificar a importância da poesia, que expressa valores e idéias que são indissolúveis ao ser humano: como a liberdade, o ato de pensar por si, o amor, asa paixões, etc. Essa dominante remete-se também à própria filosofia, uma vez que ela procura aguçar no ser humano o intrépido desejo de reflexão acerca do mundo, na tentativa levar-nos à felicidade, posto que a matemática, a gramática, a física,.. apresentam coisas prontas, entendendo o ser humano como algo acabado, que se prende a uma posição que no concernente à felicidade humana não tem implicação nenhuma, são coisas apenas necessárias para a vida. A história da filosofia prova muito bem que todo pensamento elaborado não teve outro objetivo que não fosse a felicidade. Por exemplo: Platão quando enfatizou a necessidade do ser humano em permear no sentido da epistéme, acreditava que ao alcançá-la, chegaria à felicidade; os liberais ao proporem o liberalismo como modelo político ideal, também entendiam que era a melhor maneira do homem encontrar a sua felicidade; Karl Marx ao propor o comunismo, acreditava ser o modelo político ideal para que o homem encontre sua felicidade, em virtude da supressão das classes, da propriedade privada, e, consequentemente da exploração do homem pelo homem.. A felicidade em sentido pleno é impossível, contudo, é possível obtermos “picos”, momentos para os quais toda conduta humana se dirigem e a filosofia se preocupa a nos auxiliar, através da reflexão radical metódica e sistemática. Não há nenhuma posição no sentido de tornar a filosofia auto-ajuda para a felicidade, uma vez que ela suscita no homem a reflexão, a busca pessoal e reflexiva e não o coloca num invólucro. Nada é mais importante do que a felicidade, é o que nos mantém vivo, tudo tem uma ligação com ela, por vezes, dialética:: o amor, a liberdade, as paixões, os vícios, etc.
Conclusão
A análise, de maneira geral, suscitou uma reflexão sobre a questão da liberdade em Sartre, como algo que não escapamos em hipótese nenhuma, usando como ponto referencial o personagem Neil Perry, que se imbuiu de tal liberdade, em função até do aprendizado que obteve, ao ponto de entender que era o único responsável por ela e, tão livre se sentia, escolhe a própria morte que se configuraria na privação da própria liberdade, pois o deixaria de existir.
Outro ponto que consideramos interessante, tange às frases extraída no filme, de Montaigne e a de Sócrates (“uma vida que não é examinada não merece ser vivida”). Tais frases nos remetem a uma postura de que devemo-nos buscar viver intensamente a vida, aproveitando-a ao máximo, buscando entender as paixões, os amores, sob um prisma nosso mesmo, mas sempre de maneira examinada, isto é: “eliminando tudo o que não é vida”
Autor: Professor Márcio José Proença , trabalho feito para o projeto Filosofia e Vida
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